sábado, 15 de outubro de 2011

Nan Goldin


(foto: Nan GOLDIN, 1996, Pawel' Back, East Hampton, NY)


É certo que você vive em um mundo celestial, abarrotado de sentidos. Eu continuo mergulhado em um oceano remoto. Sem edificações. Casa de peixes zumbis. Criaturas marinhas devanóides. Esses bichos que deslizam nas águas existindo por existir. Eu observo seus conselhos às outras pessoas. Observo seu corpo se transformando no minha casa, seu braço de polvo me contornando. Observo sua gratidão diante do dono do seu universo. Eu pensava que você é quem estava em transe. Eu confundi seu ritual de transcendência sagrado com um falatório de sotaque de robô. Eu construí sua casa. Construí suas coisas favoritas nos parâmetros desse lugar estranho onde eu vivo, e que um dia acreditei ser confortável, ideal. A água não é cristalina, é cancerígena. Eu sinto os primeiros sintomas, mas abrir os olhos fora dessa substância é ainda mais corrosivo. Eu vou arrancar meus olhos e me esconder nos seus pulmões. Eu te peço que me guarde, e conforte minhas últimas reações enquanto organismo vivo. Até lá vou pensando em algo bonito pra te dar em troca.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

"O homem absurdo é solicitado num determinado ponto de seu caminho

Não faltam à história religiões nem profetas, mesmo sem deuses. Pede-se-lhe que mergulhe. Tudo o que ele pode responder é que não compreende bem, que isso não é evidente. Ele só quer justamente aquilo que compreende. Asseguram-lhe que é pecado de orgulho, mas ele não entende a noção do pecado; garantem-lhe que talvez o inferno esteja no termo da jornada, mas ele não tem imaginação bastante para prefigurar esse estranho futuro; dizem-lhe que perde a vida imortal, mas isso parece-lhe fútil. Gostariam de o levar a reconhecer sua culpabilidade. Ele se sente inocente. A falar verdade, ele só sente isso, a sua inocência irreparável. É ela que lhe permite tudo. Assim, o que ele exige de si próprio é viver somente com aquilo que sabe, governar-se com aquilo que existe e nada fazer intervir que não seja certo. Respondem-lhe que nada é certo. Mas isso ao menos, é uma certeza. Com ela ele trava sua partida: quer saber se é possível viver sem apelo." (O Mito de Sísifo - ensaio sobre o absurdo, Albert Camus)

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

A rádio saúde manda o nosso mais sincero abraço

para o nosso ouvinte especial que acaba de dar aquela última tragada maravilhosa de dez segundos dos próximos 500 anos e que acaba de entrar em mais uma daquelas terapias agudas dos bons hábitos. Agora, ouvinte, você vai sentir que a cada dia sua pele cadavérica vai recuperar aquele sabor maravilhoso e aveludado da juventude em seu mais pleno e suave caminhar. É hora de experimentar um novo corte de cabelo, deixar a barba crescer e preencher seu quarto com pôsteres de hortaliças frescas. Dê um último e longo beijo nos antigos amigos, a cafeína, a nicotina, o álcool e a paixão viciosa que não conseguem perceber que a vida é um verdadeiro pomar de frutos que exigem tipos diferentes de dedicação. Estique-se e caia de vez nos braços da longevidade. Mergulhe na atmosfera do ar puro das fazendas. Sinta-se um animal selvagem, livre das roupas pós-modernas do stress e da depressão. Você, ouvinte, é o nosso maior orgulho. É a o olhar sedutor que entorpece nossos corações de alegria. É a silhueta da felicidade que transborda de esperança as almas perdidas. Nós te idolatramos até o fim da humanidade. Um beijo no seu coração. Fique agora com nossa programação musical que traz o melhor do mandopop, nas vozes das divas da música chinesa transcendental.