terça-feira, 21 de agosto de 2012

6

O ônibus para com pressa. O motorista e seu colar de vísceras. 3 passageiros em seus cantos, meditando o desencanto. Subentende-se um tratado, o de se fazer apagado. Os olhos grudados na janela, nos postes de luz amarela, meia noite na ponte, o meia-ponte achocolatado. Aquele frio molhado. Verde, marrom e sereno. Na calmaria cerebral, um aceno. 

sábado, 7 de julho de 2012

5

Evaporou-se a decisiva grama de morte no suor da pele do nômade. É uma história curta. Subitamente, semanas depois de um processo de exalação vagaroso. Foi quando viu um soldado japonês ferido soltar um bocejo imediato de aviso e encostar a cabeça sonolenta em seu ombro direito, quase desligada, a segurar os olhos com o derradeiro fio de sua disciplina oriental. Segundos depois, o soldado dominou o cansaço e foi embora.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

4

Acordado, mas de olhos fechados, tinha me esquecido de que não estava de verdade no meu quarto. Fui me dissociando desse esquecimento quando senti que meus pulmões tinham adquirido um aspecto clorofílico e vaqueado. Desconfiado, abri os olhos. Estava dentro de um paralelepípedo de quatro cores predominantes. Em cima, tiras compridas de madeira envernizada. Na face oposta, onde eu repousava num colchão, um vermelho rajado, gelado, liso e escorregadio, sem divisórias. Os outros quatro lados eram homogêneos em cor de marfim sujado, exceto o que crescia na frente da sola dos meus pés. Esse tinha uma abertura que permitia que a luz entrasse, filtrada por um pano rosado com flores brancas. Esse pano determinava a cor do interior do paralelepípedo e tingia a luz com cheiro de avó.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

2

Caminhando desconcertadamente por uma viela enrugada e cansada de ver por mais de setenta anos paredes sendo construídas, derrubadas e lambidas incontáveis vezes por rolos de tinta, guiados pela esperança de cantantes gerações, um homem sem idade, e com diamantes nos olhos, sente numa rajada de hálito jocoso o impulso de dar vozes a uma nova cantiga.

sábado, 28 de abril de 2012

1

A resistência desnecessária da língua ao sentir o sabor do sangue. Alguns segundos antes, o barulho dos ossos rompendo-se e da carne arrastada no solo pavimentado. Antes, a certeza de que a maciez e elasticidade dos lábios não será suficiente para isolar os dentes do impacto com chão maciço. Antes, o desequilíbrio do esqueleto rendido. A apreensão e o medo misturados em uma só fumaça, que expande-se irresponsavelmente no espaço limitado da caixa craniana. A pura adrenalina e o vento que rabisca com lâminas a pele. A confiança paralisadora de olhos, frente aos previsíveis obstáculos. O prazer de sacudir-se do contato das estruturas rolantes com os pequenos relevos da plataforma, de escutar os agradáveis ruídos desse processo. A mudança de estado de espírito que acompanha a distorção espaço-temporal. A entrega. A escolha que não tem volta. O impulso delinquente. A insegurança e a respiração ofegante.

domingo, 1 de abril de 2012

Eu vi, porque eu estava lá.

Mesmo não tendo você se dado conta disso, eu estava assistindo. E posso descrever tudo o que estava acontecendo. Primeiro o clarão que iluminou a sua cabeça por dentro, e depois a excitação de cada um dos seus átomos que alegraram-se em mini-explosões cheias de expectativa. Todos eles felizes, deleitando-se da sensação do recém descobrimento de uma nova ponte, que seria a via de acesso a um estouro ainda maior de contentamento. Seu rosto respondeu com uma expressão de alegria ofuscante e ensurdecedora. E todas as partículas externas àquela cena arregalaram os olhos e a boca em sinal de admiração e de solidariedade. E como recompensa ao sabor de jovialidade que, naquele momento, derretia em suas línguas extasiadas, organizaram-se para fazer soprar uma brisa macia e refrescante na direção do seu rosto, para que você se sentisse ainda mais motivado a promover acontecimentos deste gênero, que configurassem muitas outras vezes a atmosfera do ambiente num esqueleto tão harmonioso. Você está assustado com a minha descrição, e julga superdetalhada, muito cheia de significado. Acontece que é impossível se dar conta do significado desse tipo de evento no momento em que ele está em andamento. E também o significado dessas coisas não tem o menor espaço pra se manifestar nessas horas. Estou te contando a minha impressão de testemunha onipresente. Não queira diminuir o seu prazer estremecedor diante da insignificância das palavras. Eu vi, porque estava lá.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Excerto do capítulo 11

[...]Não sei muito bem quando, mas estou lembrado de em algum momento da conversa ter ouvido alguém dizer algo como "eu gostaria muito, mas não consigo". Não costumo dar muita bola nem tentar rebater esse tipo de papo, ainda mais em uma roda de muitas pessoas (até porque nunca consigo explicar direito o motivo de ficar falando essas coisas e acabo parecendo implicante), e dessa vez não foi diferente. Mas o que não interveio no assunto das pessoas que estavam por ali, acabou me isolando atrás de um muro transparente onde eu sintetizava uma linha de pensamento paralela a todo o falatório da mesa. Pouco tempo depois, esse processo de raciocínio já tomava praticamente toda minha atenção. Estava tentando, mentalmente, é claro, a sequenciar algumas palavras que significassem aquilo que eu acreditava. Estava saindo algo como "Que babaquice! Isso não é coisa que se diga. Que engano foi esse? Qual é o tipo de relacionamento que você leva consigo mesmo pra falar uma coisa estúpida dessas? Você que vive se vangloriando, e tenta parecer uma pessoa tão orgulhosa acaba de assumir, sem nem mesmo perceber, que gostaria de ser outra coisa? Evidente, porque esse negócio de querer e não conseguir é uma maneira grotesca e auto-depredativa de dizer que não quer. Pensa um pouco aí! Sei que não estou sendo claro, e talvez esteja sendo até meio grosso (outra coisa que eu vivo fazendo é tentar parecer neutro, porque por mais que eu destrua qualquer um quando falo comigo mesmo, morro de medo de bancar o sabichão, ou de perder a simpatia dos outros). A estrutura disso aqui que eu tô falando não é lá muito sólida, mas eu sinto que o que eu não consegui falar direito agora é um negócio até bem consistente". O pior de tudo é que eu fico me fuzilando com esses protótipos de teorias por um tempão, até desistir de vez de elaborar, ou até aparecer uma coisa nova.[...]

terça-feira, 13 de março de 2012

depoimento existencialista de um suposto desconhecido numa mesa de bar durante um sonho (sentido)

(~15h00, iluminação baixa)

Alguma coisa anda tentando me dizer que essa sensação de desconexão com o resto do universo acontece exatamente pelo excesso de sentido que ando atribuindo coisas em geral. Isto é isto. Antes que qualquer inteligência que se sinta na capacidade de julgar ou processar qualquer estalo de pensamento chegue a esta conclusão. Um rosto em branco é. Uma ou outra miligrama de hormônio no sangue é. Alguém escorado com a cabeça num coração é. O desconforto é. O desespero é. A insignificância é. O nó na cabeça é. Morrer afogado em uma piscina de conceitos é. Não é no sentido de ser. Não é no sentido de existir. Não é no sentido de estar. Não é no sentido. É.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O bebê chora

O bebê chora toda vez que sente na pele a geladeira da existência. O colo acaba e ele chora; o brinquedo quebra e ele chora; o sono vai embora e ele chora.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

súbito

(pensamentos críticos do guia espiritual)
Perdido na própria confusão de novo. Seus sentimentos são bonitos, mas só podem ser traduzidos em frases de estrutura sonora desagradável. Meu jovem, insista em querer demonstrar de repente todo o amor que você sente sem o indispensável e maçante prólogo e eu, essa espécie medíocre de guru espiritual, vou acabar desistindo de tratar deste assunto com você. Novos óculos, deve ser disso que você anda precisando.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

primeira tentativa de bovarismo saudável

há quanto tempo? seja-bem vindo a minha casa. coloque seu universo nessa poltrona. abre parênteses. essa poltrona que foi comprada e colocada neste exato lugar em harmonia com o restante da sala devido a uma escolha naturalmente minuciosa. tenho comigo que um centésimo da minha escolha de deixar tais objetos em tais lugares foram motivados pela certeza de receber a sua visita hoje. não exatamente hoje, mas hoje. você sabe como as coisas funcionam. continuo falando baixo contigo, só que agora sem toda aquela carga de esperança, porque por mais que as coisas sejam definitivas em seus gloriosos instantes, elas tendem a ser amenizadas. prometo que comigo elas são amenizadas artesanalmente, e se tratando de uma coisa que venha de você, tem e sempre terão um cuidado especial. o tom baixo da minha fala que antes vinha com dois terços de projeções do futuro hoje vem exclusivamente do meu respeito à sua existência. eis o meu redor. preparei-o para mim mesmo, mas certificando-me que também trariam conforto aos seus olhos. e que olhos interessantes. é claro que eu não abri a boca pra te falar nada que veio no intervalo entre depois das três primeiras frases deste texto, e antes das três últimas, e mesmo estes fragmentos foram traduzidos à sua linguagem, mas eu me certifiquei de que tudo que não fosse palavras estivesse ocupado em transmitir a você a mensagem. fecha parênteses. agora você pode beber o que quiser. e falar o que quiser. e fazer o que quiser.