[...]Não sei muito bem quando, mas estou lembrado de em algum momento da conversa ter ouvido alguém dizer algo como "eu gostaria muito, mas não consigo". Não costumo dar muita bola nem tentar rebater esse tipo de papo, ainda mais em uma roda de muitas pessoas (até porque nunca consigo explicar direito o motivo de ficar falando essas coisas e acabo parecendo implicante), e dessa vez não foi diferente. Mas o que não interveio no assunto das pessoas que estavam por ali, acabou me isolando atrás de um muro transparente onde eu sintetizava uma linha de pensamento paralela a todo o falatório da mesa. Pouco tempo depois, esse processo de raciocínio já tomava praticamente toda minha atenção. Estava tentando, mentalmente, é claro, a sequenciar algumas palavras que significassem aquilo que eu acreditava. Estava saindo algo como "Que babaquice! Isso não é coisa que se diga. Que engano foi esse? Qual é o tipo de relacionamento que você leva consigo mesmo pra falar uma coisa estúpida dessas? Você que vive se vangloriando, e tenta parecer uma pessoa tão orgulhosa acaba de assumir, sem nem mesmo perceber, que gostaria de ser outra coisa? Evidente, porque esse negócio de querer e não conseguir é uma maneira grotesca e auto-depredativa de dizer que não quer. Pensa um pouco aí! Sei que não estou sendo claro, e talvez esteja sendo até meio grosso (outra coisa que eu vivo fazendo é tentar parecer neutro, porque por mais que eu destrua qualquer um quando falo comigo mesmo, morro de medo de bancar o sabichão, ou de perder a simpatia dos outros). A estrutura disso aqui que eu tô falando não é lá muito sólida, mas eu sinto que o que eu não consegui falar direito agora é um negócio até bem consistente". O pior de tudo é que eu fico me fuzilando com esses protótipos de teorias por um tempão, até desistir de vez de elaborar, ou até aparecer uma coisa nova.[...]
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