sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Infinito?

Ao chegar nos limites do limite, encontrei uma parede oca.

Carta de reconhecimento de impotência à sabedoria do universo e de repúdio à impertinência da humanidade

(Meus órgãos do sentido perdem agora o habitual complexo de onisciência. Para eles eu não sou mais um processador. Para mim, eles não são mais os funcionários. Somos um clã de elementos perdidos nessa condição intransigente.)

Todo o meu respeito àquilo que foge das minhas percepções. Eu sinto uma constante reconfiguração das coisas, e isso basta. Não há revolta possível dentro dessa única justiça. Nem com 7 bilhões de porções de órgãos. Meu desprezo se direciona aos meus nítidos semelhantes. Eles exigem reconhecimento pela descoberta da sensação de sangue correndo nas veias. Eles querem construir as regras de uma outra justiça, e edificam um monumento  de lixo amontoado em cima de mais lixo para representá-la. Eu olho para o céu, para as plantas e para os porcos. Até cogito a possibilidade de fugir sozinho para algum lugar que ainda não esteja corrompido com esse hálito de cérebro podre, ou de me render a pureza da inexistência... Mas digerir esse desastre, isso jamais.

domingo, 4 de dezembro de 2011

A rua escura

Avisto a rua escura sabendo que não tenho mais que cinco minutos. Vejo todo aquele tempo de espera se resumindo ao final daquela rua, uma avenida cinzenta, que vai se ampliando a cada pegada que sou obrigado a largar para trás. Ao me aproximar da entrada da rua, tudo que consigo imaginar é água violenta que desemboca em uma queda fatal e inevitável. Entramos. O clima mórbido do local nos deixa mais a vontade, mas não é forte o bastante para frear nossas pernas. Nos aproximamos. Sinto a gentileza do seu toque amigável em algum lugar da região de entre os meus ombros. Deus sabe o malabarismo que eu realizo pra segurar a gentil emoção que sinto ao receber sua atenção física combinada com a tentativa de jogar frases coesas em nossa conversa, e com o pavor que sinto do final da rua se aproximando. O tom da sua voz vai servindo de sedativo. Passamos da metade. Tento diminuir o ritmo dos passos. Disparo minha visão a todos os cantos na busca de uma saída tangente. Lanço olhares profundos com todo meu sincero desespero, numa esperança vultuosa de que talvez você compreenda meu sinal de SOS. Faltam alguns metros. Já consigo sentir o cheiro fúnebre da fumaça de um ou outro carro audacioso que corta aquela avenida soturna na quase madrugada. Tento me aproximar mais um pouco na tentativa de aproveitar melhor os últimos momentos... mas a rua acaba. Escuto suas últimas palavras, pesadas, e percebo que a sua atenção já se desligou do meu espectro arrastado que insiste em acompanhar sua figura até a perdê-la de vista. Agora está feito. Eu estou sozinho de novo.

255 km

barulhos foscos e treme treme do telefone celular. sinal de olás gratuitos de madrugada e bom humor antes do sono. me agrada o tom opaco das suas declarações de sentimento. suas palavras não tem a tonelada de drama que teriam se fossem fabricadas na minha cabeça. é tudo que eu preciso saber. eu fecho os olhos, e te coloco do meu lado. pego no sono depois de rodar uma meia dúzia de cenas.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

conversa com o desconhecido de cartola e sobretudo (não consegui visualizar seu rosto e sua voz possuía aspecto mórbido)

Chegue mais perto, rapaz. Permita-me uma pergunta. Como você quer exigir do seu organismo que seu rosto não esteja emborrachado e retorcido com essa expressão negativa se você insiste em reter a negatividade para dentro dos seus poros? Ficar planejando faraonicamente um mecanismo de evacuação silenciosa desse mal estar existencial pode até resultar em algo esteticamente glorioso, e eu compreendo o que isso significa pra essa sua vaidade paranóica. Mas o uso contínuo das substâncias que disfarçam a existência dessa gelatina negra que corre no lugar do seu sangue - sem as quais você definitivamente não teria coragem de colocar o pé para fora da porta do seu quarto - isso já está te deixando um tanto surtado, não concorda?

domingo, 6 de novembro de 2011

sábado, 15 de outubro de 2011

Nan Goldin


(foto: Nan GOLDIN, 1996, Pawel' Back, East Hampton, NY)


É certo que você vive em um mundo celestial, abarrotado de sentidos. Eu continuo mergulhado em um oceano remoto. Sem edificações. Casa de peixes zumbis. Criaturas marinhas devanóides. Esses bichos que deslizam nas águas existindo por existir. Eu observo seus conselhos às outras pessoas. Observo seu corpo se transformando no minha casa, seu braço de polvo me contornando. Observo sua gratidão diante do dono do seu universo. Eu pensava que você é quem estava em transe. Eu confundi seu ritual de transcendência sagrado com um falatório de sotaque de robô. Eu construí sua casa. Construí suas coisas favoritas nos parâmetros desse lugar estranho onde eu vivo, e que um dia acreditei ser confortável, ideal. A água não é cristalina, é cancerígena. Eu sinto os primeiros sintomas, mas abrir os olhos fora dessa substância é ainda mais corrosivo. Eu vou arrancar meus olhos e me esconder nos seus pulmões. Eu te peço que me guarde, e conforte minhas últimas reações enquanto organismo vivo. Até lá vou pensando em algo bonito pra te dar em troca.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

"O homem absurdo é solicitado num determinado ponto de seu caminho

Não faltam à história religiões nem profetas, mesmo sem deuses. Pede-se-lhe que mergulhe. Tudo o que ele pode responder é que não compreende bem, que isso não é evidente. Ele só quer justamente aquilo que compreende. Asseguram-lhe que é pecado de orgulho, mas ele não entende a noção do pecado; garantem-lhe que talvez o inferno esteja no termo da jornada, mas ele não tem imaginação bastante para prefigurar esse estranho futuro; dizem-lhe que perde a vida imortal, mas isso parece-lhe fútil. Gostariam de o levar a reconhecer sua culpabilidade. Ele se sente inocente. A falar verdade, ele só sente isso, a sua inocência irreparável. É ela que lhe permite tudo. Assim, o que ele exige de si próprio é viver somente com aquilo que sabe, governar-se com aquilo que existe e nada fazer intervir que não seja certo. Respondem-lhe que nada é certo. Mas isso ao menos, é uma certeza. Com ela ele trava sua partida: quer saber se é possível viver sem apelo." (O Mito de Sísifo - ensaio sobre o absurdo, Albert Camus)

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

A rádio saúde manda o nosso mais sincero abraço

para o nosso ouvinte especial que acaba de dar aquela última tragada maravilhosa de dez segundos dos próximos 500 anos e que acaba de entrar em mais uma daquelas terapias agudas dos bons hábitos. Agora, ouvinte, você vai sentir que a cada dia sua pele cadavérica vai recuperar aquele sabor maravilhoso e aveludado da juventude em seu mais pleno e suave caminhar. É hora de experimentar um novo corte de cabelo, deixar a barba crescer e preencher seu quarto com pôsteres de hortaliças frescas. Dê um último e longo beijo nos antigos amigos, a cafeína, a nicotina, o álcool e a paixão viciosa que não conseguem perceber que a vida é um verdadeiro pomar de frutos que exigem tipos diferentes de dedicação. Estique-se e caia de vez nos braços da longevidade. Mergulhe na atmosfera do ar puro das fazendas. Sinta-se um animal selvagem, livre das roupas pós-modernas do stress e da depressão. Você, ouvinte, é o nosso maior orgulho. É a o olhar sedutor que entorpece nossos corações de alegria. É a silhueta da felicidade que transborda de esperança as almas perdidas. Nós te idolatramos até o fim da humanidade. Um beijo no seu coração. Fique agora com nossa programação musical que traz o melhor do mandopop, nas vozes das divas da música chinesa transcendental.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Há dias em que o mundo exterior se comporta de forma completamente estúpida

Ele resolve fazer com que os ônibus atrasem, as filas cresçam, e as outras pessoas realmente guardem alguma coisa completamente estúpida de se dizer ou fazer, consequência da estupidez quase permanente dos mundos interiores, estes que fazem pensar que se é possível ser aquilo que se idealiza. Mundos onde se constrói uma varanda de fazenda com uma cadeira de fios, pronta para que o esperto dono daquilo tudo, após um dia de negociação e doma, sente-se e acenda um cigarro como prova de toda a segurança que tem de que há uma câmera em suas costas passando sua imagem mítica de forma cinematográfica para os milhares de seres humanos que o conhecem. Mundos que fazem pensar que existe um mecanismo eficiente de ligações entre corpo e alma, responsável pelos movimentos exatos e sensuais, quando na verdade o que existe é um balançado estranho e desajeitado. Esses dias em que o mundo exterior se comporta de forma completamente estúpida geram revolta contra os mundos interiores. As tentativas de se atingir este mundo com vinganças ou declarações de independência geralmente são frustradas, e quando não, são ligeiras demais para que se possa abalar alguma estrutura importante de seu edifício. Depois, apelos direcionados ao estômago, fígado, e aos mais diversos órgãos são inúteis, pois o senso de solidariedade orgânica destes é inabalável.