(foto: Nan GOLDIN, 1996, Pawel' Back, East Hampton, NY)
É certo que você vive em um mundo celestial, abarrotado de sentidos. Eu continuo mergulhado em um oceano remoto. Sem edificações. Casa de peixes zumbis. Criaturas marinhas devanóides. Esses bichos que deslizam nas águas existindo por existir. Eu observo seus conselhos às outras pessoas. Observo seu corpo se transformando no minha casa, seu braço de polvo me contornando. Observo sua gratidão diante do dono do seu universo. Eu pensava que você é quem estava em transe. Eu confundi seu ritual de transcendência sagrado com um falatório de sotaque de robô. Eu construí sua casa. Construí suas coisas favoritas nos parâmetros desse lugar estranho onde eu vivo, e que um dia acreditei ser confortável, ideal. A água não é cristalina, é cancerígena. Eu sinto os primeiros sintomas, mas abrir os olhos fora dessa substância é ainda mais corrosivo. Eu vou arrancar meus olhos e me esconder nos seus pulmões. Eu te peço que me guarde, e conforte minhas últimas reações enquanto organismo vivo. Até lá vou pensando em algo bonito pra te dar em troca.

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